68

novembro 16, 2010 às 3:37 am | Publicado em Julio Cortázar | 1 Comentário

No mesmo instante em que ele lhe amalava o noema, ela lhe dava com o clemiso, e ambos caiam em hidromurias, em abanios selvagens, em sustalos exasperantes. De cada vez que procurava relamar as incopelusas, ele emaranhava-se num grimado queixoso e tinha de envulsionar-se de cara para o novalo, sentindo como se, pouco a pouco, as arnilhas se espechunassem, se fossem apeltronando, reduplimindo, ate ficar estendido como o trimalciato de ergomanina no qual se tivesse deixado cair umas filulas de cariaconcia. E, apesar disso, aquilo era apenas o principio, pois em dado momento ela tordulava-se os hurgalios, consentindo que ele aproximasse suavemente os seus orfelunios. Logo que se entreplumavam, algo como um ulucordio os encrestoriava, os extrajustava e paramovia, dando-se, de repente, o clinon, a esterfurosa convulcante das matricas, a jadeolante embocapluvia do orgumio, os espremios do merpasmo numa sobremitica agopausa. Evohe! Evohe! Volposados na crista do murelio sentiam-se balparamar, perlinos e marulos. Tremia o troque, as marioplumas era vencidas, e tudo se resolvirava num profundo pinice, em niolamas argutendidas gasas, em carinias quase crueis que os ordopenavam ate ao limite das gunfias.

Julio Cortázar- Jogo de amarelinha cap 68

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93

novembro 16, 2010 às 3:33 am | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

Mas o amor , essa palavra… Moralista Horacio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não a amo por mim nem pelos dois juntos, não a amo porque o sangue me faça amá-la , amo-a porque você não é minha, porque você está do outro lado, desse lado para onde você me convida a saltar, e não posso dar o salto, porque no mais profundo da posse você não está em mim, e não a alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do seu riso, há horas em que me atormento por saber que você me ama ( como você gosta de usar o verbo amar, com que pretensão vai deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com seu amor que não serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um só lado,Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado, e não me olhe com esses olhos de pássaro, para você a operação do amor é muito fácil, você ficará curada antes de mim, ainda que você me ame mais do que eu a você. É claro que você se curara, porque vive na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os sutiãs. É muito triste ouvir o cínico Horacio que deseja um amor passaporte, amor alpinista,, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiquidade, o silêncio no qual a música é possível,a raiz na qual se poderia começar a tecer uma longua. Eé ridículo porque tudo isso dorme um pouco em você, seria suficiente submergi-la num copo de água como uma flor japonesa, e estou certo de que pouco a pouco começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito eu não sei tomar perdoe-me Você me oferece uma maça e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira.

(…)` Era uma pequena livraria da Rue du Cherche-Midi, era um ar suave de passeios pausados, era a tarde e a hora, era a estação florida do ano, era o Verbo (no princípio), era um homem que pensava ser um homem. Que burrice infinita, mãe! E ela saiu da livraria (só agora me dou conta de que era como uma metáfora, ela saindo nada menos do que de uma livraria) e trocamos duas palavras e fomos tomar um copo de pelure d’oignon num café de Sèvres-Babylone (falando de metáforas, eu era porcelana delicada recém-desembarcada, HANDLE WITH CARE, e ela era Babilônia, raiz do tempo, coisa anterior, primeval being, terror e delícia dos inícios, romantismo de Atala, mas como um tigre autêntico, esperando atrás da árvore). E assim Sèvres foi com Babilônia tomar um copo de pelure d’oignon, olhávamos um para o outro, e penso que já começávamos a nos desejar (mas isso foi mais tarde, na Rue Réaumur), e sucedeu um diálogo memorável, absolutamente recoberto de mal-entendidos, de desajustes que se solucionam em vagos silêncios, até que as mãos começaram a marcar, era doce acariciar as mãos, olhando um para o outro e sorrindo, acendíamos Gauloises na ponta do cigarro do outro e vice-versa, esfregávamo-nos com os olhos, estávamos tão de acordo em tudo que até era uma vergonha, Paris dançava lá fora, esperando-nos, acabávamos de desembarcar, começávamos a viver, udo estava ali, sem nome e sem história (particularmente para Babilônia, e o pobre Sèvres fazia um enorme esforço, fascinado com aquela maneira como Babilônia olhava o gótico sem lhe colocar etiquetas, como andava pelas margens do rio sem ver passar os drakens normandos). Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que se tinham tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra Lulu, e basta para que o coração seja como um morango e …

Horacio, Horacio.
Merde, alors. Por que não? Falo daquele tempo, de Sèvres-Babylone, não deste balanço elegíaco em que já sabemos que a sorte está lançada.

Julio Cortázar- Jogo de amarelinha cap 93

capitulo 93 na integra aqui

143

novembro 16, 2010 às 2:42 am | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

“Pela manhã, obstinados ainda na sonolência que a campainha horripilante do despertador não conseguia trocar pela afiada vigília, contavam-se fielmente os sonnhos da noite. Cabeça contra cabeça, acariciando-se, confundindo as pernas e as mãos, esforçavam-se por traduzir em palavras do mundo exterior tudo o que haviam vivido durante as horas de treva. Traveler, um amigo da juventude de Oliveira, ficava fascinado com os sonhos de Talita, sua boa crispada ou sorridente segundo o relato, os gestos e exclamações com que o acentuava, suas ingênuas conjecturas sobre a razão e o sentido dos seus sonhos. Depois, cabia-lhe contar os seus, e por vezes, no meio de um relato, suas mãos começavam a acariciar-se, e passavam dos sonhos ao amor, dormiam de novo, chegavam tarde a todos os lugares.

Escutando Talita, sua voz um pouco pegajosa de sono, olhando seu cabelo caído sobre o travesseiro, Traveler assombrava-se de que tudo aquilo pudesse ser assim. Estendia um dedo, tocava na testa de Talita, (“E então, minha irmã era a minha tia Irene, mas não estou muito certa”), comprovava a barreira a tão pouco centímetros na sua própria cabeça (“e eu estava despido num canto e via o rio pálido que suboa, uma onda gigantesca…). Tinha dormido com as cabeças encostadas e aí, nessa premência física, na coincidência quase total das atitudes, das posições, da respiração, do mesmo quarto, do mesmo travesseiro, da mesma escuridão, do mesmo tique-taque, dos mesmos estímulos da rua e da cidade, das mesmas radiações magnéticas, da mesma marca de café, da mesma conjunção estelar, da mesma noite para os dois, aí estreitamente abraçados, tinham sonhado sonhos diferentes, tinham vivido aventuras diferentes, um sorriso enquanto a outra fugia aterrorizada, um voltara a prestar exame de álgebra, enquanto a outra chegara a uma cidade de pedras brancas.

Na narração matinal dos sonhos, Talita colocava prazer ou angústia, mas Traveler se obstinava secretamente em procurar as correspondências. Como era possível que a companhia diurna desembocasse inevitavelmente naquele divórcio, naquela solidão inadmissível do sonhador? Por vezes, sua imagem formava partes do sonho de Talita, ou a imagem de Talita compartilhava o horror de um pesadelo de Traveler. Mas eles não sabiam, era necessário que o outro contasse ao despertar: “Então, você me agarrava pela mão e me dizia…” E Traveler descobria que, enquanto no sonho de Talita ele a agarrava pela mão e lhe falava, no seu próprio sonho estava dormindo com a melhor amiga de Talita ou falando com o diretor do circo Las Estrellas, ou nadando em Mar Del Plata. A presença de seu fantasma no sonho alheio o rebaixava a mero material de trabalho, sem nenhuma superioridade sobre os autômatos, as cidades desconhecidas, as estações ferroviárias, as escadas, toda a ferramenta dos simulacros noturnos. Unido a Talita, envolvendo-lhe o rosto e a cabeça com os dedos e os lábios, Traveler sentia a barreira intransponível, a distância vertiginosa que nem o amor podia salvar. Durante muito tempo, esperou um milagre, que o sonho que Talita iria lhe contar pela manhã fosse também aquele que tinha sonhado. Esperou por isso, incitou-o, provocou-o, apelando para todas as analogias possíveis, procurando semelhanças que, bruscamente, o levassem a um reconhecimento. Apenas uma vez, sem que Talita desse a menor importância ao fato, sonharam sonhos análogos. Talita falou de um hotel onde ela e a mãe costumavam ir e no qual era preciso levar sua própria cadeira. Traveler, então, recordou o seu sonho: um hotel sem banheiros, que o obrigava a cruzar uma estação ferroviária com uma toalha para ir tomar banho em algum lugar impreciso. Disse ele: “Quase sonhamos o mesmo sonho, estávamos num hotel sem cadeiras e sem banheiros”. Talita riu, divertido, já era hora de levantar, uma vergonha serem tão preguiçosos.

Traveler continuou confiando e esperando cada vez menos. Os sonhos voltavam, cada um por seu lado. As cabeças dormiam encostadas, e, em cada uma delas, levantava-se o pano sobre um cenário diferente. Traveler pensou ironicamente que pareciam os cinemas contíguos da calle Lavalle e perdeu de uma vez por todas as suas esperanças. Não acreditava absolutamente que acontecesse o que desejava, e sabia que, sem fé, jamais ocorreria. Sabia que, sem fé, nada do que deveria acontecer acontece; e, com fé, também quase nunca.”

Julio Cortázar – Jogo de amarelinhas cap 143

encontrado aqui

agosto 2, 2009 às 11:27 pm | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

O Jogo da Amarelinha- Capitulo 7- Julio Cortázar

agosto 2, 2009 às 10:49 pm | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

Te amo por sombrancelha, por cabelo, te debato em corredores branquíssimos
onde se jogam as fontes de luz,
te discuto em cada nome, te arranco com delicadeza de cicatriz,
vou pondo em teu cabelo cinzas de relâmpago e fitas que
dormiam na chuva.
Não quero que tenhas uma forma, que sejas precisamente o que
vem atrás da tua mão,
porque a água, considera a água, e os leões quando se dissolvem
no açúcar da fábula,
e os gestos, essa arquitetura do nada,
acendendo suas lâmpadas no meio do encontro.
Todo amanhã é o quadro onde te invento e te desenho,
disposto a te apagar, assim não és, muito menos com esse cabelo liso,
esse sorriso.
Busco tua soma, a borda da taça onde o vinho é também a lua e o espelho,
busco essa linha que faz o homem tremer
numa galeria de museu.
Além do mais te amo, e faz tempo e frio.

Julio Cortázar

agosto 2, 2009 às 10:37 pm | Publicado em Julio Cortázar | 1 Comentário

Agora escrevo pássaros.
Não os vejo chegar, não escolho,
de repente estão aí,
um bando de palavras
a pousar
uma
por
uma
nos arames da página,
entre chilreios e bicadas, chuva de asas,
e eu sem pão para dar, tão somente
deixo-os vir. Talvez
seja isto uma árvore,

ou quem sabe,
o amor.

Julio Cortázar

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