93

novembro 16, 2010 às 3:33 am | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

Mas o amor , essa palavra… Moralista Horacio, temeroso de paixões sem uma razão de águas fundas, desconcertado e arisco na cidade onde o amor se chama com todos os nomes de todas as ruas, de todas as casas, de todos os andares, de todos os quartos, de todas as camas, de todos os sonhos, de todos os esquecimentos ou recordações. Amor meu, não a amo por mim nem pelos dois juntos, não a amo porque o sangue me faça amá-la , amo-a porque você não é minha, porque você está do outro lado, desse lado para onde você me convida a saltar, e não posso dar o salto, porque no mais profundo da posse você não está em mim, e não a alcanço, não consigo passar para lá do seu corpo, do seu riso, há horas em que me atormento por saber que você me ama ( como você gosta de usar o verbo amar, com que pretensão vai deixando cair o verbo amar sobre os pratos, os lençóis e os ônibus), atormento-me com seu amor que não serve de ponte, pois uma ponte não se apóia de um só lado,Wright ou Le Corbusier jamais farão uma ponte apoiada de um só lado, e não me olhe com esses olhos de pássaro, para você a operação do amor é muito fácil, você ficará curada antes de mim, ainda que você me ame mais do que eu a você. É claro que você se curara, porque vive na saúde, depois de mim será outro qualquer, isso muda como os sutiãs. É muito triste ouvir o cínico Horacio que deseja um amor passaporte, amor alpinista,, amor chave, amor revólver, amor que lhe dê os mil olhos de Argos, a ubiquidade, o silêncio no qual a música é possível,a raiz na qual se poderia começar a tecer uma longua. Eé ridículo porque tudo isso dorme um pouco em você, seria suficiente submergi-la num copo de água como uma flor japonesa, e estou certo de que pouco a pouco começariam a brotar pétalas coloridas, as formas curvas aumentariam, a beleza cresceria. Doadora de infinito eu não sei tomar perdoe-me Você me oferece uma maça e eu deixei os dentes sobre a mesa de cabeceira.

(…)` Era uma pequena livraria da Rue du Cherche-Midi, era um ar suave de passeios pausados, era a tarde e a hora, era a estação florida do ano, era o Verbo (no princípio), era um homem que pensava ser um homem. Que burrice infinita, mãe! E ela saiu da livraria (só agora me dou conta de que era como uma metáfora, ela saindo nada menos do que de uma livraria) e trocamos duas palavras e fomos tomar um copo de pelure d’oignon num café de Sèvres-Babylone (falando de metáforas, eu era porcelana delicada recém-desembarcada, HANDLE WITH CARE, e ela era Babilônia, raiz do tempo, coisa anterior, primeval being, terror e delícia dos inícios, romantismo de Atala, mas como um tigre autêntico, esperando atrás da árvore). E assim Sèvres foi com Babilônia tomar um copo de pelure d’oignon, olhávamos um para o outro, e penso que já começávamos a nos desejar (mas isso foi mais tarde, na Rue Réaumur), e sucedeu um diálogo memorável, absolutamente recoberto de mal-entendidos, de desajustes que se solucionam em vagos silêncios, até que as mãos começaram a marcar, era doce acariciar as mãos, olhando um para o outro e sorrindo, acendíamos Gauloises na ponta do cigarro do outro e vice-versa, esfregávamo-nos com os olhos, estávamos tão de acordo em tudo que até era uma vergonha, Paris dançava lá fora, esperando-nos, acabávamos de desembarcar, começávamos a viver, udo estava ali, sem nome e sem história (particularmente para Babilônia, e o pobre Sèvres fazia um enorme esforço, fascinado com aquela maneira como Babilônia olhava o gótico sem lhe colocar etiquetas, como andava pelas margens do rio sem ver passar os drakens normandos). Quando nos despedimos, éramos como duas crianças que se tinham tornado estrepitosamente amigas numa festa de aniversário e que continuavam olhando uma para outra enquanto os pais as puxavam pelas mãos, arrastando-as, e isso é uma dor doce e uma esperança, e sabe-se que um se chama Tony e a outra Lulu, e basta para que o coração seja como um morango e …

Horacio, Horacio.
Merde, alors. Por que não? Falo daquele tempo, de Sèvres-Babylone, não deste balanço elegíaco em que já sabemos que a sorte está lançada.

Julio Cortázar- Jogo de amarelinha cap 93

capitulo 93 na integra aqui

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