Precisa-se de um amigo

maio 8, 2008 às 4:17 pm | Publicado em Vínicius de Moraes | 6 Comentários

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de
madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da
brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não
ter esse amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam
consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.

 Não é preciso que seja de primeira mão, nem é
imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos
os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo
impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no
caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter
ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir
pena das pessoa tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve
gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

   Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos,
que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples,
de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de
um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve
gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de
estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

  Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena
viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de
um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em
busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas
que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

 

Vinícius de Moraes

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A felicidade

dezembro 18, 2006 às 6:41 am | Publicado em Vínicius de Moraes | Deixe um comentário

Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Prá fazer a fantasia
De rei, ou de pirata ou jardineira
Prá tudo se acabar na quarta feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim…
A felicidade é como a gota de orvalho
Numa pétala de flor
brilha tranqüila
Depois de leve oscila…
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade está sonhando
Nos olhinhos do meu namorado
É como essa noite passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo por favor…
Prá que ele acorde alegre como o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes e Tom Jobim

Samba da benção

dezembro 18, 2006 às 6:34 am | Publicado em Vínicius de Moraes | Deixe um comentário

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba, não

Senão é como amar uma mulher só linda. E daí?
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza
Qualquer coisa que sofre,Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade,Um molejo de amor machucado
Uma tristeza que vem da beleza
De se saber mulher,Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor, E para ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assin não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não

Feito essa gente que anda por aí
Brincando com a vida Cuidado companheiro!
A vida é pra valer E não se engane não,
tem uma só
Duas mesmo que é bom
Ninguém vai me dizer que tem
Sem provar muito bem provado
Com certidão passada em cartório do céu
E assinado em baixo:Deus
E com firma reconhecida
A VIDA COMIGO É A ARTE DO ENCONTRO
EMBORA HAJA TANTO DESENCONTRO PELA VIDA.
Há sempre uma mulher à sua espera
Com os olhos cheios de carinho
E as mãos cheias de perdão
Ponha um pouco de amor na sua vida
Como no seu samba

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba, não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração

 Vinícius de Moraes e Baden Powell

Chega de Saudade

novembro 22, 2006 às 12:44 pm | Publicado em Vínicius de Moraes | 6 Comentários

Vai minha tristeza
E diz a ela que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece
Que ela regresse
Porque não posso mais sofrer
Chega de saudade
A realidade é que sem ela
Não há paz Não há beleza
É só tristeza e a melancolia
Que não sai de mim
Não sai de mim
Não sai
Mas, se ela voltar
Se ela voltar que coisa linda!
Que coisa louca!
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos
Que eu darei na sua boca
Dentro dos meus braços, os abraços
Hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calada assim,
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio
De você viver sem mim
Não quero mais esse negócio
De você longe de mim
Vamos deixar esse negócio
De você viver sem mim.

Vinicius de Moraes

Terra Prometida

novembro 10, 2006 às 1:05 pm | Publicado em Vínicius de Moraes | Deixe um comentário

Poder dormir
Poder morar
Poder sair
Poder chegar
Poder viver
Bem devagar
E depois de partir
poder voltar
E dizer: este aqui é o meu lugar
E poder
assistir ao entardecer
E saber que vai ver o sol raiar
E ter amor e dar amor
E receber amor até não poder mais
E sem querer nenhum poder
Poder viver feliz pra
se morrer em paz

Vinicius de Moraes

A gente não faz amigos, reconhece-os

novembro 10, 2006 às 12:22 pm | Publicado em Vínicius de Moraes | Deixe um comentário

Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos. Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles. A amizade é um sentimento mais nobre do que o amor, eis que permite que o objeto dela se divida em outros afetos, enquanto o amor tem intrínseco o ciúme, que não admite a rivalidade. E eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos! Até mesmo aqueles que não percebem o quanto são meus amigos e o quanto minha vida depende de suas existências … A alguns deles não procuro, basta-me saber que eles existem. Esta mera condição me encoraja a seguir em frente pela vida.
Mas, porque não os procuro com assiduidade, não posso lhes dizer o quanto gosto deles. Eles não iriam acreditar. Muitos deles estão lendo esta crônica e não sabem que estão incluídos na sagrada relação de meus amigos. Mas é delicioso que eu saiba e sinta que os
adoro, embora não declare e não os procure. E às vezes, quando os procuro, noto que eles não tem noção de como me são necessários, de como são indispensáveis ao meu equilíbrio vital, porque eles fazem parte do mundo que eu, tremulamente, construí, e se tornaram alicerces do meu encanto pela vida.
Se um deles morrer, eu ficarei torto para um lado. Se todos eles morrerem, eu desabo! Por isso é que, sem que eles saibam, eu rezo pela vida deles. E me envergonho, porque essa minha prece é, em síntese, dirigida ao meu bem estar. Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.
Por vezes, mergulho em pensamentos sobre alguns deles. Quando viajo e fico diante de lugares maravilhosos, cai-me alguma lágrima por não estarem junto de mim,
compartilhando daquele prazer… Se alguma coisa me consome e me envelhece é que a roda furiosa da vida não me permite ter sempre ao meu lado, morando comigo, andando comigo, falando comigo, vivendo comigo, todos os meus amigos, e, principalmente, os que só desconfiam – ou talvez nunca vão saber – que são meus amigos!  
Vinicius de Moraes

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