143

novembro 16, 2010 às 2:42 am | Publicado em Julio Cortázar | Deixe um comentário

“Pela manhã, obstinados ainda na sonolência que a campainha horripilante do despertador não conseguia trocar pela afiada vigília, contavam-se fielmente os sonnhos da noite. Cabeça contra cabeça, acariciando-se, confundindo as pernas e as mãos, esforçavam-se por traduzir em palavras do mundo exterior tudo o que haviam vivido durante as horas de treva. Traveler, um amigo da juventude de Oliveira, ficava fascinado com os sonhos de Talita, sua boa crispada ou sorridente segundo o relato, os gestos e exclamações com que o acentuava, suas ingênuas conjecturas sobre a razão e o sentido dos seus sonhos. Depois, cabia-lhe contar os seus, e por vezes, no meio de um relato, suas mãos começavam a acariciar-se, e passavam dos sonhos ao amor, dormiam de novo, chegavam tarde a todos os lugares.

Escutando Talita, sua voz um pouco pegajosa de sono, olhando seu cabelo caído sobre o travesseiro, Traveler assombrava-se de que tudo aquilo pudesse ser assim. Estendia um dedo, tocava na testa de Talita, (“E então, minha irmã era a minha tia Irene, mas não estou muito certa”), comprovava a barreira a tão pouco centímetros na sua própria cabeça (“e eu estava despido num canto e via o rio pálido que suboa, uma onda gigantesca…). Tinha dormido com as cabeças encostadas e aí, nessa premência física, na coincidência quase total das atitudes, das posições, da respiração, do mesmo quarto, do mesmo travesseiro, da mesma escuridão, do mesmo tique-taque, dos mesmos estímulos da rua e da cidade, das mesmas radiações magnéticas, da mesma marca de café, da mesma conjunção estelar, da mesma noite para os dois, aí estreitamente abraçados, tinham sonhado sonhos diferentes, tinham vivido aventuras diferentes, um sorriso enquanto a outra fugia aterrorizada, um voltara a prestar exame de álgebra, enquanto a outra chegara a uma cidade de pedras brancas.

Na narração matinal dos sonhos, Talita colocava prazer ou angústia, mas Traveler se obstinava secretamente em procurar as correspondências. Como era possível que a companhia diurna desembocasse inevitavelmente naquele divórcio, naquela solidão inadmissível do sonhador? Por vezes, sua imagem formava partes do sonho de Talita, ou a imagem de Talita compartilhava o horror de um pesadelo de Traveler. Mas eles não sabiam, era necessário que o outro contasse ao despertar: “Então, você me agarrava pela mão e me dizia…” E Traveler descobria que, enquanto no sonho de Talita ele a agarrava pela mão e lhe falava, no seu próprio sonho estava dormindo com a melhor amiga de Talita ou falando com o diretor do circo Las Estrellas, ou nadando em Mar Del Plata. A presença de seu fantasma no sonho alheio o rebaixava a mero material de trabalho, sem nenhuma superioridade sobre os autômatos, as cidades desconhecidas, as estações ferroviárias, as escadas, toda a ferramenta dos simulacros noturnos. Unido a Talita, envolvendo-lhe o rosto e a cabeça com os dedos e os lábios, Traveler sentia a barreira intransponível, a distância vertiginosa que nem o amor podia salvar. Durante muito tempo, esperou um milagre, que o sonho que Talita iria lhe contar pela manhã fosse também aquele que tinha sonhado. Esperou por isso, incitou-o, provocou-o, apelando para todas as analogias possíveis, procurando semelhanças que, bruscamente, o levassem a um reconhecimento. Apenas uma vez, sem que Talita desse a menor importância ao fato, sonharam sonhos análogos. Talita falou de um hotel onde ela e a mãe costumavam ir e no qual era preciso levar sua própria cadeira. Traveler, então, recordou o seu sonho: um hotel sem banheiros, que o obrigava a cruzar uma estação ferroviária com uma toalha para ir tomar banho em algum lugar impreciso. Disse ele: “Quase sonhamos o mesmo sonho, estávamos num hotel sem cadeiras e sem banheiros”. Talita riu, divertido, já era hora de levantar, uma vergonha serem tão preguiçosos.

Traveler continuou confiando e esperando cada vez menos. Os sonhos voltavam, cada um por seu lado. As cabeças dormiam encostadas, e, em cada uma delas, levantava-se o pano sobre um cenário diferente. Traveler pensou ironicamente que pareciam os cinemas contíguos da calle Lavalle e perdeu de uma vez por todas as suas esperanças. Não acreditava absolutamente que acontecesse o que desejava, e sabia que, sem fé, jamais ocorreria. Sabia que, sem fé, nada do que deveria acontecer acontece; e, com fé, também quase nunca.”

Julio Cortázar – Jogo de amarelinhas cap 143

encontrado aqui

Anúncios

Deixe um comentário »

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.

%d blogueiros gostam disto: