Carta de um louco

dezembro 26, 2010 às 3:09 am | Publicado em Guy de Maupassant | 2 Comentários

Meu caro doutor, ponho-me nas suas mãos. Faça de mim o que quiser.
Vou falar-lhe, bem francamente, do meu estranho estado de espírito, e o senhor apreciará se não valerá mais tomar conta de mim por algum tempo numa casa-de-saúde, do que deixar-me sujeito às alucinações e aos sofrimentos que me atormentam.
Eis a história, longa e exacta, do mal singular da minha alma.
Eu vivia como todo o mundo, olhando a vida com os olhos abertos e cegos do homem, sem me espantar e sem compreender. Vivia como vivem os animais, como vivemos todos, cumprindo todas as funções da existência, examinando e crendo ver, crendo saber, crendo conhecer o que me rodeia, quando, um dia, me apercebi que tudo é falso.
Foi uma frase de Montesquieu que iluminou bruscamente o meu pensamento. Ei-la: «Um orgão a mais ou a menos na nossa máquina far-nos-ia uma outra inteligência.
…Enfim, todas as leis estabelecidas sobre o facto da nossa máquina ser de uma certa maneira, seriam diferentes se a nossa máquina não fosse desta maneira.»
Reflecti sobre isto durante meses, e meses, e meses, e, a pouco e pouco, uma estranha claridade entrou em mim, e essa claridade fez em mim a noite.
Com efeito, – os nossos orgãos são os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós. Quer dizer que o ser interior, que constitui o eu, se encontra em contacto, por meio de uns quaisquer filamentos nervosos, com o ser exterior que constitui o mundo.
Ora, não só esse ser exterior nos escapa pelas suas proporções, a sua duração, as suas propriedades inumeráveis e impenetráveis, as suas origens, o seu porvir ou os seus fins, as suas formas longínquas e as suas manifestações infinitas, como ainda os nossos orgãos não nos fornecem, sobre a sua parcela que podemos conhecer, senão informações tão incertas, quão pouco numerosas.
Incertas, porque são unicamente as propriedades dos nossos orgãos que determinam para nós as propriedades aparentes da matéria.
Pouco numerosas, porque, não sendo os nossos sentidos mais que cinco, o campo das suas investigações e a natureza das suas revelações encontram-se bem restringidas.
Explico-me. – O olho indica-nos as dimensões, as formas e as cores. Ele engana-nos sobre esses três pontos.
Ele não nos pode revelar senão os objectos e os seres de dimensão média em proporção com a estatura humana, o que nos levou a aplicar a palavra grande a certas coisas e a palavra pequeno a certas outras, unicamente porque a sua fraqueza não lhe permite conhecer aquilo que é demasiado vasto ou demasiado miúdo para ele. Donde resulta que ele não sabe e não vê quase nada, que o universo quase inteiro lhe permanece oculto, a estrela que habita o espaço e o animálculo que habita a gota de água.
Mesmo se ele tivesse cem milhões de vezes a sua potência normal, se percebesse no ar que respiramos todas as raças de seres invisíveis, assim como os habitantes de planetas vizinhos, existiriam ainda números infinitos de raças de animais mais pequenos e mundos de tal maneira longínquos que não os alcançaria.
Logo, todas as nossas ideias de proporção são falsas, pois que não há limite possível na grandeza, nem na pequenez.
A nossa apreciação das dimensões e das formas não tem qualquer valor absoluto, sendo determinada unicamente pela potência de um orgão e por uma constante comparação com nós mesmos.
(…)
Passemos à cor.
A cor existe, porque o nosso olho é constituído de tal sorte que transmite ao cérebro, sob a forma de cor, os diversos modos em que os corpos absorvem e decompõem, segundo a sua constituição química, os raios luminosos que os atingem.
Todas as proporções dessa absorção e dessa decomposição constituem os cambiantes.
Logo, esse orgão impõe ao espírito a sua maneira de ver, ou melhor, o seu modo arbitrário de verificar as dimensões e de apreciar as relações entre a luz e a matéria.
Examinemos o ouvido.
Ainda mais que com o olho, somos os joguetes e os papalvos deste orgão fantasista.
Dois corpos chocam produzindo um certo abalo da atmosfera. Esse movimento faz estremecer no nosso ouvido uma certa pequena pele que torna imediatamente em ruído aquilo que, na realidade, não é mais que uma vibração.
A natureza é muda. Mas o tímpano possui a propriedade miraculosa de nos transmitir sob a forma de sons, e de sons diversos consoante o número de vibrações, todos os frémitos das ondas invisíveis do espaço.
Essa metamorfose realizada pelo nervo auditivo no curto trajecto do ouvido ao cérebro permitiu-nos criar uma arte estranha, a música, a mais poética e a mais precisa das artes, vaga como um sonho e exacta como a álgebra.
Que dizer do gosto e do olfacto? Conheceríamos nós os perfumes e a qualidade dos alimentos sem as propriedades extravagantes do nosso nariz e do nosso paladar?
No entanto, a humanidade poderia existir sem o ouvido, sem o gosto e sem o olfacto, quer dizer, sem qualquer noção do ruído, do sabor e do odor.
Logo, se tivéssemos alguns orgãos a menos, ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns orgãos a mais, descobriríamos, à nossa volta, uma infinidade de outras coisas, a respeito das quais jamais suspeitaremos da falta de meio para as notar.
Logo, enganamo-nos ao julgar o Conhecido, e estamos rodeados pelo Desconhecido inexplorado.
Logo, tudo é incerto e apreciável de maneiras diferentes.
Tudo é falso, tudo é possível, tudo é duvidoso.
(…)
Dois e dois não devem mais ser quatro para lá da nossa atmosfera.
(…)
Depois de me ter convencido que tudo o que os meus sentidos me revelam não existe senão para mim na maneira em que o percebo, e seria totalmente diferente para um outro ser de outro modo organizado, depois de ter concluído que uma humanidade diversamente feita teria sobre o mundo, sobre a vida, sobre tudo, ideias absolutamente opostas às nossas, pois, o acordo das crenças não resulta senão da similitude dos orgãos humanos, e as divergências de opinião não provêm senão de ligeiras diferenças de funcionamento dos nossos filamentos nervosos, fiz um esforço de pensamento sobre-humano para suspeitar do impenetrável que me rodeia.
Tornei-me eu um louco?
Disse a mim mesmo: estou cercado por coisas desconhecidas. Supus o homem sem ouvidos e suspeitando do som, como nós suspeitamos tanto de mistérios ocultos, o homem notando os fenómenos acústicos, de que não poderá determinar nem a natureza, nem a proveniência. E ganhei medo de tudo o que me rodeia, medo do ar, medo da noite. A partir do momento em que não podemos conhecer quase nada, e a partir do momento em que tudo é sem limites, o que é o resto? O vazio não é? O que é que há no aparente vazio?

GUY DE MAUPASSANT, «Lettre d’un fou», Le Horla et autres contes d’angoisse, Paris, Flammarion, 1984, pp.37-41.

Encontrado aqui.

17.

dezembro 22, 2010 às 3:48 am | Publicado em Alain de Botton | Deixe um comentário

Palavras como amor ou dedicação ou paixão estavam exauridas pelo peso das sucessivas histórias de amor, pelas camadas impostas a elas pelo uso dos outros. No momento em que eu mais queria que a linguagem fosse original, pessoal e de todo privada, eu me chocava com a natureza irrevogavelmente pública da linguagem do coração.

22.

Então notei um pratinho de marshmallows de cortesia perto do cotovelo de Chloe. Inexplicavelmente de um ponto de vista semântico, de repente me pareceu claro que eu não sentia amor por Chloe tanto quanto marshmallow. O que havia num marshmallow que deveria subitamente ter combinado de forma tão perfeita com meus sentimentos para com ela jamais saberei , mas a palavra parecia capturar a essência do meu estado amoroso com uma precisão a que a palavra amor, desgastada pelo excesso de uso, simplesmente não podia aspirar. Até mesmo de forma mais inexplicável, quando peguei a mão de Chloe e, com um pé em Bogart e outro em Romeu, falei que tinha algo muito importante a lhe dizer, que eu a marshmellava, ela pareceu entender perfeitamente, respondendo que era a coisa mais doce que alguém havia lhe dito.

23.

E dali por diante, o amor foi, pelo menos para mim e Chloe, não mais simplesmente amor, era um objeto fofo e açucarado de poucos milímetros de diâmetro que derrete deliciosamente na boca.

Alain de Botton – em Ensaios de amor

O que precisa nascer

dezembro 3, 2010 às 11:57 pm | Publicado em Adélia Prado | 2 Comentários

O que precisa nascer
tem sua raiz em chão de casa velha.
À sua necessidade o piso cede,
estalam rachaduras nas paredes,
os caixões de janela se desprendem.
O que precisa nascer
aparece no sonho buscando frinchas no teto,
réstias de luz e ar.
Sei muito bem do que este sonho fala
e a quem pode me dar
peço coragem.

Adélia Prado, em A duração do dia

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