Esperar é reconhecer-se incompleto
janeiro 15, 2012 às 3:59 am | Publicado em João Guimarães Rosa | Deixe um comentárioJoão Guimarães Rosa
janeiro 15, 2012 às 3:54 am | Publicado em Valter Hugo Mãe | Deixe um comentário
Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.
Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela.
A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.
A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.
As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.
Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro.
Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.
O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.
Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso.
Valter Hugo Mãe – Flip de 2011 em Paraty-RJ
um riso sem um
junho 14, 2011 às 2:03 am | Publicado em e.e.cummings | Deixe um comentárioum riso sem um
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(ou qualquer coisa)
vida é um velho carregando flores na cabeça
junho 14, 2011 às 2:01 am | Publicado em e.e.cummings | Deixe um comentáriovida é um velho carregando flores na cabeça
jovem morte senta no café
sorrindo, algum dinheiro preso entre
o polegar e o indicador
(digo comprará flores pra você
e morte é jovem
vida usa calças de veludo
vida cambaleia, vida tem barba eu
digo a você que está em silêncio – você vê
vida? está lá e aqui
é aquilo ou isso
ou nada ou um velho três terços
adormecidos, na sua cabeça
flores sempre chorando
para ninguém alguma coisa sobre as
rosas as centáureas
sim,
comprará?
as belas botas – ó escute
(nada caras)
e meu amor devagar respondeu acho que sim mas
acho que vejo mais alguém
uma senhora cujo nome é após
está sentada do lado da jovem morte, é esbelta
gosta de flores.
e.e.e cummings
né(comoemsonho)voa
junho 14, 2011 às 1:56 am | Publicado em e.e.cummings | Deixe um comentáriotorna
grande cada dim
inuti
vo faz o óbv
io e
str
anho
a
té que
nósmes
mos vi
remos mun
(magic
a
mente)
dos
( tradução: Augusto de Campos )
março 20, 2011 às 11:59 pm | Publicado em Clarice Lispector, Trechos | 2 Comentários
Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.
Clarice Lispector
Catavento e Girassol
março 20, 2011 às 11:31 pm | Publicado em ihh não sei | Deixe um comentárioCatavento e Girassol
Guinga e Aldir Blanc
Meu catavento tem dentro
O que há do lado de fora do teu girassol
Entre o escancaro e o contido
Eu te pedi sustenido
E você riu bemol
Você só pensa no espaço
Eu exigi duração
Eu sou um gato de subúrbio
Você é litorânea
Quando eu respeito os sinais
Vejo você de patins
Vindo na contra-mão
Mas, quando ataco de macho
Você se faz de capacho
E não quer confusão
Nenhum dos dois se entrega
Nós não ouvimos conselho:
Eu sou você que se vai
No sumidouro do espelho
Eu sou do Engenho de Dentro
E você vive no vento do Arpoador
Eu tenho um jeito arredio
E você é expansiva
(o inseto e a flor)
Um torce pra Mia Farrow
O outro é Woody Allen…
Quando assovio uma seresta
Você dança, havaiana
Eu vou de tênis e jeans
Encontro você demais:
Scarpin, soirée
Quando o pau quebra na esquina
Você ataca de fina
E me oferece em inglês:
É fuck you, bate-bronha
E ninguém mete o bedelho:
Você sou eu que me vou
No sumidouro do espelho
A paz é feita no motel
De alma lavada e passada
Pra descobrir logo depois
Que não serviu pra nada
Nos dias de carnaval
Aumentam os desenganos:
Você vai pra Parati
E eu pro Cacique de Ramos
Meu catavento tem dentro
O vento escancarado do Arpoador
Teu girassol tem de fora
O escondido do Engenho de Dentro da flor
Eu sinto muita saudade
Você é contemporânea
Eu penso em tudo quanto faço
Você é tão espontânea!
Sei que um depende do outro
Só pra ser diferente
Pra se completar
Sei que um se afasta do outro
No sufoco somente pra se aproximar
Cê tem um jeito verde de ser
E eu sou mais vermelho
Mas os dois juntos se vão
No sumidouro do espelho
.
março 20, 2011 às 11:27 pm | Publicado em José de Alencar | Deixe um comentário’..pensava que deveria haver no universo algum lugar desconhecido, algum canto da terra ainda puro do hálito do homem, onde a natureza virgem conservaria o perfume dos primeiros tempos da criação e o contato das mãos de Deus quando a formara.
Aí era impossível que o ar não desse vida ; que o raio de sol não viesse impregnado de um átomo de fogo celeste; que a água, as arvores, a terra, cheia de tanta seiva e de tanto vigor, não inoculassem na criatura essa vitalidade
poderosa da natureza no seu primitivo esplendor.
Iríamos, pois, a uma dessas solidões desconhecidas; o mundo abriria-se diante de nós e eu sentia-me com bastante força e bastante coragem para levar o meu tesouro alem dos mares e das montanhas, até achar um retiro onde esconder nossa felicidade…’
José de Alencar
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