Narciso cego

junho 11, 2010 às 4:56 pm | Publicado em Thiago de Mello | Deixe um comentário

Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio – não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelo declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talves em Deus
sonhe comigo, cobice
o que guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-se sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo – calado pânico –
entre o sonho e o sonhador.

Thiago de Mello

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