O banho

dezembro 13, 2009 às 4:18 pm | Publicado em Raduan Nassar | 1 Comentário

Debaixo do chuveiro eu deixava suas mãos escorregarem pelo meu corpo, e suas mãos eram inesgotáveis, e corriam perscrutadoras com muita espuma, e elas iam e vinham incansavelmente, e nossos corpos molhados vez e outra se colavam pr’elas me alcançarem as costas num abraço, e eu achava gostoso todo esse movimento dúbio e sinuoso, me provocando súbitos e recônditos solavancos, e vendo que aquelas mãos já me devassavam as regiões mais obscuras – vasculhando inclusive os fiapos que acompanham a emenda mal cosida das virilhas (sopesando sorrateiras a trouxa ensaboada do meu sexo) – eu disse “me lave a cabeça, eu tenho pressa disso”, e então, me tirando do foco da ducha, suas mãos logo penetraram pelos meus cabelos, friccionando com firmeza os dedos, riscando meu couro com as unhas, me raspando a nuca dum jeito que me deixava maluco na medula, mas eu não dizia nada e só ficava sentindo a espuma crescendo fofa lá no alto até que desabasse com espalhafato pela cara, me alfinetando os olhos na descida, me fazendo esfregá-los doidamente com o nó dos dedos, ainda que eu soubesse que eles, ardendo, anunciavam francamente o meu asseio, e não demorou ela me puxou de novo sob a ducha, e seus dedos começaram a tramar a coisa mais gostosa do mundo nos meus cabelos co’a chuva quente que caía em cima, e era então um plaft plaft de espuma grossa e atropelada, se espatifando na cerâmica co’a água que corria ruidosa para o ralo, e ela ria e ria, e eu ali, todo quieto e largado aos seus cuidados, eu sequer mexia um dedo pra que ela cumprisse sozinha o trabalho, e eu já estava bem enxaguado quando ela, resvalando dos limites da tarefa, deslizou a boca molhada pela minha pele d’água, mas eu, tomando-lhe os frios, fiz de conta que nada perturbava o ritual, e assim que ela fechou o registro me deixei conduzir calado do box para o piso, e, ligado numa ligeira corrente de arrepios, fiquei aguardando até que ela me jogou uma ampla toalha sobre a cabeça, cuidando logo de me enxugar os cabelos, em movimentos tão ágeis e precisos que me agitavam a memória, e com os olhos escondidos vi por instantes, embora pequenos e descalços, seus pés crescerem metidos em chinelões, e senti também suas mãos afiladas se transformarem de repente em mãos rústicas e pesadas, e eram mãos minuciosas que me entravam com os dedos pelas orelhas, me cumulando de afagos, me fazendo cócegas, me fazendo rir baixinho sob a toalha, e era extremamente bom ela se ocupando do meu corpo e me conduzindo enrolado lá pro quarto e me penteando diante do espelho e me passando um pito de cenho fingido e me fazendo pequenas recomendações e me fazendo vestir calça e camisa e me fazendo deitar as costas ali na cama, debruçando-se em seguida pra me fechar os botões, e me fazendo estender os meus pesados sapatos no seu regaço pra que ela, dobrando-se cheia de aplicação, pudesse dar o laço, eu só sei que me entregava completamente em suas mãos pra que o uso que ela fizesse do meu corpo fosse inteiro.

Raduan Nassar
em O copo de cólera p.21

Anúncios

Memórias de Abacate

dezembro 2, 2009 às 4:20 am | Publicado em Danilo Crespo | 1 Comentário
  Num segundo nós estamos comendo abacate e estudando química – lendo sobre a lei de Avogadro (ou Lei de Adevogado, como eu chamava; ou Lei de Avocado como você chamava). A gente ia lendo e comendo (de colher), e quando você me via comendo muito, parava de ler pra ficar só comendo e eu dizia “agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo” e você ria, mas como nenhum de nós sabia Química, a gente acabava voltando pro começo. No próximo segundo, você ainda está no mesmo lugar, porém seus olhos cheios de lágrimas, e eu estou com minhas coisas e indo embora. Indo pra casa, alguns quilômetros dali, não prá Paris ou Londres.
Mas outro segundo vem, e nós estamos caminhando na praia, tímidos, querendo falar alguma coisa, mas com medo de… do que a gente tem medo quando não conhece aquela pessoa do nosso lado, mas sabe que um dia vai conhecer. E então, eu pego uma margarida e te digo que você é tão linda quanto aquela margarida. Você sorri, tímida tímida e diz que eu sou bobo bobo. No segundo seguinte, você não está usando sua blusa rosa, você não está usando nada. E me pergunta, com a cabeça no meu peito: Por que você me ama? E eu digo que você sabe onde mora a felicidade. Você diz que não sabe e que achava que eu que sabia. E antes de mais alguma coisa a gente está lá se beijando outra vez.
E no próximo segundo, nós estamos olhando para o céu azul. Tão azul que engole a gente na azulzice dele. O problema é que eu sou muito desligado e o meu sorvete pinga na sua roupa e você briga comigo e quando você faz isso, seu sorvete cai no chão e você briga comigo de novo. Mas eu estou rindo, é uma briga de namorada! Namorada! Minha namorada. Você está furiosa, as coisas são assim mesmo. No segundo que vem, você está brava e diz que eu não entendo as coisas. Dessa vez eu respondo, digo “eu gosto disso, dessa coisa de não entender… Nem saber o que vai acontecer.”.
Nesse segundo então, nós estamos deitados juntos, comendo pipoca e assistindo à um dos filmes cult que você tanto adora. Um do Fellini, um bem maluco. E eu tento te dar um beijo e você me ignora no momento importante, mas logo depois me abraça e me beija. E depois do filme, você tenta explicar e eu digo que prefiro não entender, o filme foi lindo do jeito que foi. Não importa. E a gente se beija. E um segundo passa, e lá está você olhando séria pra mim. Dizendo que acha que não sente mais nada. Não sente mais as faíscas do amor. Não me ama mais.
Eu abro os olhos e o segundo seguinte dura algum tempo, porque dessa vez eu estou descendo a escada chorando. Sim, homens também choram. E era quase noite, e eu queria morrer. Nesse momento, a gente fica pensando qual é o sentido da vida. Eu tenho certeza que a minha felicidade ficou contigo e a sua comigo. No outro segundo, uma idéia bate na minha cabeça. São quase sete horas, eu corro até o horti fruti. Eu quero uma última chance, digo à mim mesmo. E assim, no segundo adiante, eu estou subindo as escadas. Eu bato à porta. Você abre. Você está usando sua blusa rosa favorita.
“Vá embora.” Eu respondo que só quero que a gente coma um último abacate juntos. Só isso. “Não, por favor, vá embora…”. Eu insisto que dois anos e meio não devem acabar com lágrimas tristes, mas sim com boas memórias. Você resmunga, mas depois deixa eu entrar, contanto que a porta fique aberta e eu vá embora, logo em seguida. Tudo bem.
Nós estamos comendo sem nos olhar. Você ainda tem os olhos vermelhos. E eu o coração partido. O abacate não tem o gosto bom que tinha antes. Eu puxo o abacate só pra mim e começo a comer sozinho. Você briga comigo e puxa da minha mão e começa a comer o que falta sozinha. E enquanto você está fazendo isso com cara de brava, eu só consigo pensar em uma coisa.
“Seis vezes dez elevado a vigésima terceira potência.” Eu falo. Você pára de comer. Olha pra mim por um único segundo e diz “Quê?”. Eu respondo “O número de Avocado!” e, um sorriso mínimo aparece no seu rosto. Eu continuo “Agora, a gente vai ter que voltar pro começo de novo”. No segundo seguinte você ri, ri tanto que sua barriga dói. Você me chama de bobo bobo. Eu sorrio, levanto, fecho a porta e apago a luz.
E nesse segundo agora, nossas novas faíscas brilham indicando onde a felicidade está. E ela está aqui, bem debaixo dos nossos narizes.[J.D. Crespo – 28/10/09 – www.docedeclinio.wordpress.com ]

« Página anterior

Blog no WordPress.com.
Entries e comentários feeds.