Celebração da voz humana/2

maio 8, 2009 às 12:16 am | Publicado em Eduardo Galeano | 3 Comentários
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Tinham as mãos amarradas, ou algemadas, e ainda assim os dedos dançavam, voavam, desenhavam palavras. Os presos estavam encapuzados; mas inclinando-se conseguiam ver alguma coisa, alguma coisinha, por baixo. E embora fosse proibido falar, eles conversavam com as mãos.

Pinio Ungerfeld me ensinou o alfabeto dos dedos, que aprendeu na prisão sem professor:
– Alguns tinham caligrafia ruim – me disse -. Outros tinham letra de artista.A ditadura uruguaia queria que cada um fosse apenas um, que cada um fosse ninguém: nas cadeias e quartéis, e no país inteiro, a comunicação era delito.

Alguns presos passaram mais de dez anos enterrados em calabouços solitários do tamanho de um ataúde, sem escutar outras vozes além do ruído das grades ou dos passos das botas pelos corredores. Fernández Huidobro e Mauricio Rosencof, condenados a essa solidão, salvaram-se porque conseguiram conversar, com batidinhas na parede. Assim contavam sonhos e lembranças, amores e desamores; discutiam, se abraçavam, brigavam; compartilhavam certezas e belezas e também dúvidas e culpas e perguntas que não têm resposta.

Quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos, temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada”.

Eduardo Galeano
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3 Comentários »

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  1. belissimo! gostei do seu blog. volto! 😉

  2. eduardo galeano é um dos latino americanos mais lindos, mais sensíveis e mais revolucionários que eu já lí.

    • Só posso agradecer por reler o que já havia esquecido: este belo texto do Livro dos Abraços. Venho, então,enlaçar meu texto ao seu, ao destre escritor maior, porque sincero, sensível, solidário. Venho aqui fazer e refazer a teia dos afetos, da memória dos fatos pela leitura e pela lida, para que a fogueira que somos seja luz, como busca Galeano, e não fogueira das vaidades.
      Pretendo seguir seu blog, mesmo que não tenha localizado esta opção formal. Um abraço “galeânico”


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